• Ariane Angioletti

Visibilidade trans: você enxerga esta parcela da população?

Hoje é o dia nacional da visibilidade trans. Você pode não compreender nada sobre essa questão, pode não conviver com nenhuma pessoa trans em sua intimidade, pode estar longe de pessoas transgênero. Mas você não pode ignorar a existência e o direito de existirem com dignidade.

Falo sempre sobre envelhecimento e, num primeiro momento, você pode se perguntar o que a visibilidade trans tem a ver com isso. Realmente é difícil vincular envelhecimento com os transgêneros no Brasil, simplesmente porque a esmagadora maioria deles não envelhece!


Somos o país que mais mata a população trans no mundo! De todos os assassinatos desta população, 40% aconteceram aqui. Acontecem em nossa cidade, em nosso bairro e em nossas ruas, mas não damos importância. Essa talvez seja a segunda maior crueldade a qual estas pessoas são submetidas: vivem às margens e morrem sem ninguém se importar com isso.


Quando falamos em envelhecimento da população LGBTI, percebemos que são as vítimas mais frequentes de assassinatos e de mortes em decorrência da violência movida por discriminação e preconceito.


Mas, quando essas pessoas conseguem ultrapassar a curva da idade e alcançam a velhice, os problemas são maiores do que dos idosos heterossexuais e, comparadamente, maiores do que os enfrentados pelos idosos negros. Sem dúvidas os idosos heterossexuais brancos são os mais privilegiados.


Não consegui localizar pesquisas sobre os idosos LGBTIs. Isso explica parte de uma invisibilidade e a importância de datas como a de hoje. Porém, mesmo sem números que expressem e corroborem as informações que sabemos do dia-a-dia, deixo as minhas reflexões.


Primeiro, vamos à matemática pura e simples. Estamos em 2020. Os idosos que estão entre as idades de 60 e 70 anos nasceram entre 1960 e 1950, foram adolescentes entre 1975 a 1985. Em que pese os anos 60 serem conhecidos como a década da liberdade sexual, dos hippies, dos movimentos estudantis, também foram os anos da ditadura no Brasil. Ainda tínhamos as internações manicomiais daqueles que não se enquadravam no perfil socialmente aceito. Os pais destes meninos e meninas raramente admitiam a permanência de um gay em sua família, que eram atirados na rua, expulsos da convivência familiar, marginalizados e com a vida reiniciada sem qualquer alicerce.


Estes mesmos idosos que temos hoje, estavam no ápice de sua vida sexual quando o HVI/AIDS era praticamente uma epidemia no Brasil. Tiveram que lidar com a associação fácil e covarde de que esta doença era exclusiva dos homossexuais. Hoje, o número de infectados aumenta na população idosa hetero, que não foi sexualmente educada para perceber-se como um grupo de risco.


Temos os idosos homossexuais que não puderam constituir família regulamentada, não puderam receber pensão dos seus companheiros, tiveram que lutar para receber a herança de sua companheira que era exigida pela família da falecida – a mesma família que a jogou na rua por causa de sua orientação sexual. Esses idosos não puderam adotar filhos e não tiveram acesso aos meios médicos de gerar seus filhos biológicos.


Em que pese os reveses do último ano, especialmente do posicionamento do Governo Federal, os direitos adquiridos nos últimos anos foram avanços que devem ser comemorados e defendidos por todos, pois nada mais são do que a garantia de acesso à dignidade e cidadania.


Se falarmos da população trans – transgêneros, travestis e transexuais – devemos elevar estas dificuldades, o preconceito e a marginalização à décima potência. Para muitos, restou apenas a prostituição como meio de subsistência.


Agora pensem naqueles que levaram uma vida para conseguir assumir sua transgeneralidade? Os que iniciaram a transição já mais velhos, tendo passado parte da vida como homens e mulheres heterossexuais? Um ato de coragem extrema, que muitas vezes provoca uma ruptura com a própria história de vida. O caso mais conhecido é da cartunista Laerte. Ela mesma diz que não sofreu represália, não teve sua renda diminuída e não passou por grandes impactos nas suas redes familiares e de amigos, por ser uma pessoa pública, pelo seu histórico na contra-cultura e por estar envolvida com o setor de artes. O anonimato pode realmente dificultar as coisas.


Os idosos LGBTIs que não conseguiram assegurar minimamente seus cuidados para as fases do envelhecimento, estão fadados ao acolhimento institucional.

Lá, nas casas geriátricas, como serão atendidos? Pelo sexo biológico ou pela forma com que se identificam? Será que depois de romper com todas as amarras, de passar por todos os percalços de uma vida calcada nos comentários pejorativos, no medo, do afastamento da família, esses idosos seguirão sendo convidados a “retornarem para o armário” para terem onde viver o restante de sua vida?


E será que a medicina está olhando para as questões de saúde que os trans enfrentam, especialmente por conta das terapias hormonais? O atendimento da rede pública de saúde está, de fato, oferecendo os atendimentos que esta população precisa? A segurança pública está debruçada em garantir o direito de ir, vir, de SER e existir desta população?


Como sempre digo, eu reconheço os privilégios que tenho, sendo mulher cis, heterossexual, branca, com duas graduações, no sul do país. Só que, ainda sim, não consigo não pensar na população LGBTI com profundo respeito e com uma empatia gigantesca.


São pessoas como eu, como qualquer um, que precisam, respirar, comer, trabalhar, anseiam por amar e serem amados, por construir um lar, por envelhecer em segurança e em paz. São pessoas que estão incluídas no artigo 5º da Constituição Federal: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade(...)”


Você pode não compreender o que acontece no organismo e na psique de uma pessoa que tem uma orientação ou identidade de gênero diferente da sua. Mas, entenda, você não tem o direito de destratar, diminuir, desmerecer ou agredir esta pessoa. Você não tem nem mesmo o direito de emitir opinião sobre a vida particular de qualquer pessoa.


E, se ficou na dúvida sobre que pronome usar (se feminino ou masculino), você pode perguntar a própria pessoa, ou se esforçar para usar os pronomes neutros, porque eles existem!

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